O debate recente entre seguradoras e parlamentares expôs uma falha estratégica grave na gestão dos recursos públicos destinados ao agronegócio brasileiro: a prioridade equivocada entre renegociação de dívidas rurais e investimento em mitigação de riscos climáticos, especialmente via seguro rural. Essa escolha não é apenas um erro operacional, mas uma decisão que impacta diretamente a sustentabilidade financeira do setor e a eficiência do gasto público.
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, e a senadora Tereza Cristina, entre outros líderes, deixaram claro que a falta de uma política robusta e protegida para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) representa um custo maior para o Tesouro e uma vulnerabilidade persistente para o produtor rural. A análise desses posicionamentos revela uma oportunidade estratégica para reverter a lógica atual e fortalecer a segurança econômica do agro brasileiro.
Alocação de Recursos: O Custo Oculto da Renegociação de Dívidas Rurais
Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), destacou que o problema não está na escassez de recursos, mas na forma como eles são alocados pelo governo. A escolha por financiar a renegociação de dívidas rurais geradas por eventos climáticos extremos, em vez de investir preventivamente em seguros rurais, representa uma ineficiência financeira e estratégica para a União.
Na prática, isso significa que o Tesouro acaba arcando com custos maiores e recorrentes, enquanto a cadeia produtiva permanece vulnerável a novos choques climáticos. Oliveira aponta para uma falha de “inteligência alocativa”, onde o equilíbrio fiscal é buscado “acima da linha” e a renegociação de dívidas fica fora do resultado primário, criando um incentivo perverso para postergar a mitigação de riscos.
Essa estratégia, embora pareça vantajosa no curto prazo, é insustentável. A conta nominal das dívidas rurais continuará crescendo até um ponto em que sua gestão será inviável, elevando o risco de crise financeira no setor. O sinal para o gestor público é claro: expandir o seguro rural é uma medida mais econômica e eficaz do que continuar arcando com renegociações frequentes.
Quem acompanha a política econômica deve questionar: até quando será tolerada essa visão de curto prazo que penaliza o setor produtivo e o erário? A resposta determinará a capacidade do Brasil de manter seu protagonismo no agronegócio global.
Seguro Rural: A Alavanca Estratégica para a Sustentabilidade do Agro
A senadora e ex-ministra da Agricultura, Tereza Cristina, reforçou que a dependência contínua de renegociações de dívidas é uma “burrice” e que o seguro rural deve ser tratado como prioridade para evitar o endividamento crônico do produtor. Ela alerta para a necessidade de uma mudança cultural no campo, onde o seguro seja incorporado como ferramenta básica de gestão de risco.
O projeto de lei 2.951/2024, que atualiza o marco legal do seguro rural, é um passo importante, mas ainda insuficiente para resolver o problema estrutural. A senadora destaca que a aprovação da lei é apenas o início de um processo que exige educação, conscientização e políticas públicas robustas para fomentar a cultura do seguro.
Na prática, isso significa que o produtor rural deve ser capacitado para entender e valorizar o seguro como um mecanismo de proteção e alavancagem financeira. A ausência dessa cultura mantém o setor dependente de “muletas” financeiras do governo, comprometendo sua autonomia e competitividade.
O alerta é para que o setor privado, o governo e as instituições de pesquisa trabalhem juntos para construir essa cultura e ampliar a cobertura do seguro rural, atualmente restrita a apenas 3% da área agrícola do país, conforme apontado por Mônica Sodré, CEO da Meridiana.
A oportunidade está clara: aumentar a penetração do seguro rural não só protege o produtor contra perdas climáticas, mas também fortalece a cadeia de suprimentos e melhora a inteligência de mercado, criando um ambiente mais resiliente e competitivo para o agro brasileiro.
Construindo um Pacto para a Política Agrícola do Futuro
Tânia Zanella, presidente-executiva da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), revelou que o setor está trabalhando em uma proposta de nova política agrícola, em parceria com a FGV-Agro, que terá o seguro rural como componente fundamental.
O objetivo é apresentar essa proposta aos candidatos à Presidência da República nas próximas eleições, buscando um compromisso formal para transformar a gestão de riscos climáticos no país. Essa iniciativa representa uma oportunidade estratégica para alinhar políticas públicas, setor privado e produtores em torno de uma agenda comum.
Na prática, esse pacto poderá garantir aportes financeiros mais robustos e protegidos contra cortes, além de promover a inovação tecnológica e a sustentabilidade no campo. A visão de futuro é clara: um agro resiliente, capaz de antecipar e mitigar riscos climáticos, com apoio institucional consistente e gestão de risco integrada.
A mensagem para os líderes do agronegócio é inequívoca: quem não se engajar nessa transformação estará exposto a riscos crescentes e perda de competitividade no mercado global. A aposta na inovação, cultura do seguro e políticas públicas alinhadas é o caminho para garantir a sustentabilidade e o crescimento do setor.
Risco Climático: Uma Questão de Economia e Estratégia Nacional
Mônica Sodré, CEO da Meridiana, trouxe uma perspectiva pragmática ao debate, destacando que o risco climático não é um tema exclusivo de ambientalistas, mas uma variável econômica crucial para o Brasil. Ela ressalta que apenas 3% da área agrícola do país é assegurada, o que expõe grande parte da economia a condições inadequadas e insuficientes de proteção.
Essa realidade coloca em risco a segurança alimentar e a estabilidade econômica do país, especialmente em um cenário global cada vez mais volátil. A oportunidade está em transformar o seguro rural em uma ferramenta estratégica, capaz de integrar tecnologia embarcada, inteligência de mercado e gestão de risco para proteger a produção e ampliar a resiliência do agro.
Na prática, isso exige uma conversa séria e integrada entre governo, setor privado e sociedade para implementar políticas que garantam aportes robustos e contínuos ao seguro rural, evitando a repetição do ciclo de endividamento e renegociação.
O sinal para o empresário rural é claro: não é mais possível operar com riscos climáticos desprotegidos. A inovação e a gestão de risco são imperativos para garantir a sustentabilidade e a competitividade do agronegócio brasileiro no futuro próximo.
Para aprofundar essa análise, vale consultar o site da CNseg, o FGV-Agro e a Organização das Cooperativas Brasileiras, que são referências no desenvolvimento dessas políticas e estudos.











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